"QUEBRA DE EMPRESA"

Atualmente verifica-se um descompasso entre o escopo e o alcance da auditoria sobre as demonstrações financeiras das empresas , segundo as normas de auditoria, e a expectativa do público em geral e dos órgãos reguladores, em relação ao resultado , reportado nos relatórios dos auditores. Essa contradição surgiu a partir da última década, com a divulgação de casos de fraudes contábeis nas companhias Enron, WorldCom, Parmalat e, recentemente, no Brasil nos Bancos Panamericano e Cruzeiro do Sul. O público espera que o relatório de auditoria proporcione um conforto quanto à integridade das informações divulgadas nas demonstrações financeiras com risco irrelevante de fraude, de erros ou de quaisquer tipos de irregularidades contábeis . Para alcançar esta segurança, será necessário ampliar significativamente a abrangência e a profundidade , requerendo, inclusive, a participação nos trabalhos de profissionais com diferentes habilidades e competências . Consequentemente, o custo com a auditoria será bem maior.

Normalmente, numa auditoria, cujo objetivo é a verificação das práticas contábeis aplicadas na elaboração das demonstrações financeiras, não são adotados procedimentos específicos para detectar fraudes. Contudo, esse é o tipo de trabalho que o mercado está exigindo. Por isso, é importante a discussão ampla sobre a abordagem da auditoria independente, envolvendo todas as classes interessadas neste assunto. O aumento da extensão do trabalho de auditoria e do custo do serviço deve ser bem avaliado, em comparação com o benefício que será proporcionado. Naturalmente que as companhias com bons controles internos e procedimentos eficientes vão questionar se o aumento no custo do serviço de auditoria vai gerar beneficio para elas. Talvez esse seja o momento apropriado para uma nova discussão sobre o que precisa ser feito para atender a expectativa do público em geral. O resultado dessa discussão deverá trazer modificações no modelo do relatório de auditoria, aperfeiçoando a comunicação com os usuários das demonstrações financeiras, de forma a atender a expectativa de todos os interessados, preservando, também, as empresas de auditoria, contra possíveis ações judiciais.

As mudanças nas normas de auditoria são importantes para esclarecer , nos casos de fraudes, de quem foi a responsabilidade, se do auditor independente que, supostamente, não executou todos os testes e nem adotou os procedimentos de auditoria requeridos para fundamentar a sua opinião ou se do empresário, que realizou operação irregular, que manipulou os dados contábeis, que violou as normas, regulamentos ou leis, afetando as demonstrações financeiras da empresa. Enquanto não for tomada alguma providência, vão continuar os questionamentos sobre a responsabilidade pelas fraudes contábeis destinadas a encobrir prejuízos ou desviar recursos que, muitas vezes, ocasionam até a quebra de empresa.

Cláudio Sá Leitão e Geraldo Ribeiro - Sócios da Sá Leitão Auditores e Consultores.

PUBLICADO NO JORNAL DO COMMERCIO EM 14.06.2013.